
Ontem adormeceram-me! Hoje acordaram-me para me voltarem a adormecer! Vagueio dormente entre o passado e o presente onde o futuro não tem lugar.
Passo a gilete lentamente pelo rosto enrugado. As gelhas da pele são ainda a expressão mais visível do que já não sou e me transformei. Um ser sem expressão, olhar vazio e passo arrastado perdido entre os muros altos deste estar aqui em que o tempo passa indiferente.
Olho-me no espelho e já não me vejo... a silhueta do que vejo é uma sombra do que fui.
Olho fixamente o infinito e já nem o imaginário conheço. Vislumbro apenas em linha recta os fantasmas em que tropeço. Ouço-os e respondo-lhes em diálogos que se cruzam no monólogo solitário. Já não conheço a saudade!
Adormecido e alheado sigo em circulares internas do curto espaço da praça. Não sei onde vou nem se quero ir porque perdi o que procuro... ou procurei?!
Entrego-me na sensação da moleza de Prozac’s e Xanax’s ou outros tantos genéricos do género. Importa andar, rodopiar... sem importunar.
Acalento-me nas réstias da sensibilidade que me ficou, mas continuo sem conhecer o caminho que faço todos os dias... vou de lá para cá ... rodo... paro... e sigo de cá para lá. Sem saber por onde quero ir... fico! Retomo a rotina do meu delírio anestesiado em químicos que abafam a falta da química dos afectos!
(Hospital Psiquiátrico do Lorvão, Fevereiro 2006)