
de
sabãO


Tempo vai-te da dor enraizada na pele do meu sentir... exorcizo a mágoa pelos passos que o tempo ajuda a dar. Tempo que fica do que passou na passagem do horizonte do passado... penso no presente construindo o futuro de pequenos passados. Olho para trás encontro retalhos da manta que nos acolheu no aconchego do tempo ido sem tempo. Parei ... porque o desfrutei… recordo… ainda!
Cruzado com a árdua batalha travada nas limitações do que fui neste corpo descubro-me na consciência de querer viver... mais... muito! Vencedor deste duelo, ouço as cores dos sons da vida. Aninho-me na recordação, no sonho... de lado ficam os medos e os fantasmas que ocupam um espaço passado.Hoje... presente... sussurro para mim o que revelo aos outros... sou Serendipity man… Entre pequenas coisas encontro o brilho de valiosos tesouros que se cruzam com a simplicidade do acaso dos pequenos momentos, atitudes, gestos… Assim sou Rei de um reinado por redescobrir na atemporalidade. Aprisiono no tempo uma princesa encantada que se esgueira das grades do vermelho do meu coração. Agonizo… por instantes… avanço… pela eternidade do diálogo com a esperança. Então sou o herói deste filme… Serendipity man... que do tempo apenas procura, com tempo, um final feliz!
Para trás ficaram...as notícias das 7... os filhos lavados e vestidos... o pequeno almoço na mesa...o gato alimentado...a máquina da roupa a lavar... as camas feitas... o jantar a descongelar... a lista de compras por comprar... o cheque da escola... o duche rápido mas quente... a maquilhagem por fazer... um gole de café... um beijo trocado na pressa da luz de mais um dia!

Para trás ficaram rastos de sombras de identidades que se perderam no Fim dos Tempos... ou dos tempos sem fim! Divago pela contemplação de um infinito inventado em novos céus que cobrem uma terra diferente... onde o mar ainda é mar!
... na impaciência de horas sem ouvir a tua voz remexo as roupas e encontro a tua mãozinha delicada e mimada. Assim ficamos entre imagens brilhantes das histórias recontadas em volta dos mistérios dos berços solares e lunares. Mão… que te embala o silêncio… acolhe… embala e alimenta com água láctea, perpetuando vínculos agarrados à árvore da vida.Mão… que te deixa apertar o medo e com outra mão cheia embala cantigas de estrelas levando daqui o vento incerto. Mão… que encolhe gestos de zanga e se esconde no regaço para evitar a palmada e com a outra mão embala berços de caracóis rebeldes e cabelos finos de seda.Mão que deixa escorregar os sonhos pela almofada e volta ao repouso… enfim!



Quando eu for grande... vou voar para dentro do sentido do valor de outras pequenas coisas. Sentir que há cortinas que se abrem em sorrisos sob olhares brilhantes. Voltar a ver que o descompasso do bater do coração é apenas da emoção.
Por agora quero continuar criança, manter-me na protecção da posição fetal de mão dada com o cordão umbilical...
Quero pensar que o sol brilha sobre flores lançadas ao mar... porque o dia é de festa. Ver nos teus olhos que ainda posso acreditar que há razões para acreditar!




Cansados sentamo-nos nas poltronas do balcão retendo na mão os bilhetes da plateia. No conforto da dureza da pedra vimos reflectido no mar o filme da nossa vida . Cada onda trazia consigo o avivar de dias passados no tempo mas ainda tão próximos do coração! “Estás linda, minha querida!”, mesmo sem batom, botox rímel, mini-saia ou saltos altos, gosto de ti assim quando o vento de despenteia! Prendeste-me para sempre na teia verde do teu olhar quando pela primeira vez os nossos olhares se encontraram. Ainda recordo o cheiro doce daquele momento! Contemplo-te sonhadora do que já foi ou poderia ter sido... consciente do que é no presente e será no futuro! Temo-nos aos dois e ao resto do mundo até que o inevitável nos obrigue a mudar de posição nestas poltronas de pedra!
