sexta-feira, abril 01, 2011

... receitas.


Pousou a romã sobre a mesa, limpou as mãos ao avental e sacudiu a farinha da manga da camisola. Ao mesmo tempo, com o movimento rápido da cabeça, empurrou para trás os caracóis que pendiam sobre a testa e cobriam o olhar com a mexa loura esbranquiçada. A panela preta de ferro estalava de dor do quente das labaredas. Como o crepitar do lume a fazia ficar ali e ao mesmo tempo voar para a distância da memória… Fechou os olhos e caiu no nocturno íntimo do lusco-fusco da sua interioridade. Há muito que não pegava naquele caderno amarelado do tempo onde escrevia as receitas mais significativas da sua vida: diário de comeres e sabo[e]res… Este reflecte o efeito prático do que fazia e das coisas que lhe  passavam pela cabeça. Relê fórmulas mirabolantes como atum em bisnaga, … vidas registadas num almanaque de coisas menores. Passou a mão endurecida pelo sol na rugosidade saliente do papel. Reencontrou as manchas de umas quantas lágrimas teimosas que caíram e tornaram o pão desse dia ainda mais salgado.
- Então Rosinha? … - Perguntei meio a medo de ouvir uma confissão.
- … é da cebola … a cebola… ai os tempos menina… os tempos… - suspirando ruidosamente uma fungadela que se lhe solta do fundo da aflição de não saber disfarçar.
Os tempos repetem-se hoje sem preâmbulos nem expectativas em que o pão-nosso-de-cada-dia sabe ao pão-que-o-diabo-amassou.

terça-feira, março 29, 2011

... um pouco mais para ali!



O mundo quase me caiu em cima. Ironias, pois diz-se por aqui que os espíritos andam em paz e que tudo é diferente.
Há quartos secretos, passagens escondidas, paredes falsas e temos por hábito a terrível ideia de nos pendurarmos de cabeça para baixo. Outros esconderão a cabeça num buraco de areia.
De volta à mesa redonda do canto da sala, ajeito o corpo nas almofadas que me amolecem a vontade. Beberico em pequenos golos o chá quente que fumega desenhos que se desfazem no ar misturados com o fumo do teu cigarro. Demoro lentamente este momento em que palavra-puxa-palavra acabamos a “calhandrar” a vida dos outros, sem fazer mal a ninguém. Segredos ingénuos, sem malícia gravam-se nas paredes sólidas da sala de estar a que chamo sala de ficar por ali. Porque o tempo convida a ficar!
Observo os teus gestos preguiçosos num jogo de empurra das migalhas do pão-de-ló, ora ordenadas em carreirinhos ora dispostas à mercê de um cheque-mate.

Sobressaltas-me no desafio “Vá…diz o que estavas a pensar…”

O toque acusou-se a energia da trémula inércia … En gard… touché… quão valente este golpe de esgrima de palavras misturadas nos sentimentos que não se sabem. 
A pele da face arde-me do calor rosado da marca do que penso. Se dissesse o que penso com tudo o que sei… esvaziava-me!
Aninho-me como que num exercício de sobrevivência tentando que o mundo caia… um pouco mais para ali!