


mulheres de preto - Eugénio de Andrade

Na sombra do silêncio apenas mais um pouco de ontem ainda ficou. Semeaste campos de afecto onde foste boneca de papel... boneca de trapos... boneca de porcelana... sempre frágil de formas mas tão forte de alma.
Resisto imaginar que rumarias mais a sul onde grandes romarias deixam escapar canções de pequenos nadas entoadas pela ausência da mulher que as cantou! Deixo-me escorregar na crença de que outros caminhos ainda se cruzarão pela vida dianteira banindo alguns fantasmas secretos que apenas as tuas mechas deixam distinguir...
De soslaio olho os teus traços do tempo que parecem fundir-se na pedra.
Segredas-me que as tuas horas não são as minhas porque as tuas já começam a faltar ao dia. Comprometidas neste diálogo de memórias inventadas no futuro corriges-me as latitudes mais longínquas fazendo-me acreditar que o azul é apenas de um mar só.
Entre mudanças de vento tempestuosas quantas vezes terás navegado fora da linha de cabotagem?! Como entendes bem o significado dos universos desfeitos entre ausências e recaídas e refeitos na crença de que todos os dias também se erguem monumentos de pequenas vitórias. A vida embriagou-te! A lucidez invade-te!
Olho-te presa ao infinito do que deixaste para trás. Ouço o bater das tuas emoções dissimuladas entre a serenidade e a inquietude...
...onde guardarás um suspiro?


andavámos os dois. a entregar os pés à calçada. ao chão amadurecido de cinzento preto e branco. às ervas que pintavam os passos. entre as pedras. cansadas. entre as pedras. cinzentas e pintadas de passos. verdes. cansados.andavámos os dois. sozinhos dentro cada um. do seu próprio corpo. e de vez em quando. olhávamos as montras. e as montras vazavam-se para dentro de nós. e eramos a montra e os vestidos calçava-nos. as mãos. e à noite. estávamos dentro dos corpos dos vestidos. sozinhos virados para a rua.e as pessoas. falavam do que tinham comido ontem à noite. com o sabor do café bebido de manhã na boca. falavam da televisão e dos homens que mataram duzentas pessoas. enquanto dormiam sossegados nas suas casas. e os seus filhos. contavam as estrelas. e amavam-se. com beijos na boca. e as pessoas. mortas. nasciam de novo. em cada beijo. e depois. morriam outra vez. e andavámos os dois. sozinhos. a encolher os ombros à multidão. que se chamava. multidão e que sabia o nome a dar. a cada par de sapatos. entregue à calçada. cansada. pintada de passos. cinzenta a preto e branco. e com ervas a nascer. entre os espaços das pedras.m. de multidão.
João
Obrigada. João http://osdiasdasnoites.blogspot.com/
