Quantas vezes o abandono tomava conta da situação. Ali juntos juntávamos monólogos que no fim do dia gostaria de somar ao diálogo de amantes de outras épocas. Há gestos que não se dizem, depreendem-se na expressão do movimento. As dúvidas preenchem-me as descobertas dos últimos tempos.
Olho-te na miragem que construí nesta forma de estar que imaginei perfeita. Sinto-te distante, metida nos teus pensamentos, nas viagens a lugares que desconheço e que agora fazes sem mim.
Sempre me julguei um homem sensato, cuja dose de liberalismo me permitiu ver-te como a mulher que se movimenta por entre outros mundos com garra e determinação… mas com dedicação ao lar e aos filhos. Engano meu! Observo o teu gesto na escolha de cada peça de vestuário, o cair de cada mecha, o traço forte do eye liner sobre a sombra dos olhos, o bâton que agora é carmim escuro… fica a fragrância espalhada da marca que já não sei qual é…
Pareço um quase desempregado com a vida em recessão afectiva. Uma referência à questão económica da logística doméstica… assim nos resumimos: a consulta da filha, os livros do filho e tantas outras contas infindáveis da casa…
Avalio os indícios da traição quando o horror é a realidade… mesmo quando não digo sente-se que não estás aqui. Já não se me soltam as lágrimas, não porque tenha assumido a máxima de que “um homem nunca chora”… sequei …. apenas!
Mantenho os sensores sempre alerta sobre os conhecidos clichés do desvio… o toque de telemóvel… sms atrás de sms… o teu riso disfarçado entre a mentira que se solta fácil… “ é a…X…” duma chamada feita à socapa e desligada nervosamente, o email que se apaga mas deixa nos lábios um sorriso que julguei ser só meu.
Aproxima.se o Dia da Mãe. Sem perfume julgo que quase merecias um bilhete de ida para fora de nós.
Talvez mais importante do que lamentar o fracasso em termos públicos é poder pensar que em breve vais deixar de dizer para ti mesma, quando me fixas fugazmente o olhar - “espera aí um bocadinho enquanto eu brinco aos namorados…”
Talvez depois esteja um tanto diluído no roteiro da vida que vou (re)descobrindo: perdoa-se (quem sabe um dia…) mas não se esquece a marca que estas coisas deixam.
Estou cansado … ainda por aqui mantenho o rumo daqui para lado nenhum … longe é a lua…
(histórias que ouço... no masculino)