quinta-feira, setembro 15, 2005

... cheiro a nós!



Senti que a solidão até me fica bem à cor da pele da alma...deixa-me espaço para pensar em tudo entre o nada .... Prendo-me na madrugada... só... mas aqui! Viva, desperta e refeita de momentos de loucura cometidos no delírio da noite adentro. Bate-me a insónia do sono por dormir. Relembro-me entre lençóis salpicados de areia áspera onde corpos desnudados deslizam no aveludado da pele e se fundem em gotas de seiva humana. Sabe-me a sal a pele que toca os meus lábios... sabe-me a mel o cheiro a nós!

Ficámos assim naquele para sempre do instante breve extasiado.Não sei. Já não sei se tenho tantas certezas, opiniões e verdades na ponta da língua... apenas me parece que já não abro mão de me oferecer porque sou tua!...Cruzo os braços e de perna traçada deixo o tempo voar rasteiro. Sem tempo ou com tempo aprecio este momento em que sou só. Parto... entre pensamentos imaginados e refaço as histórias que vi, porque lhes vivi a emoção escondida!

domingo, setembro 04, 2005

... não me olhes assim!!


... tira a burka e deixa-me olhar a nudez do teu sorriso. Terás tempo para mais tarde envolveres o rosto em mantos diáfanos de seda e espreitar outros mundos pela janela do coração. Agora olha para mim... mas... não me olhes assim!!

domingo, agosto 28, 2005

Bordado de Vida













Que importa tocar piano, falar francês quando os teus dedos bordam pontos de sonho em seda selvagem?!!! Crivas o ponto-pé-de-flor desenhado em tecidos finos no tear do teu saber e viver. Bordas no pano as rugas de mãos delicadas que amassam o pão nosso de cada dia, cavado no pó fino da terra agreste. Ponto... a ... ponto... crescem em panos de linho a estopa de canteiros bordados em terrenos arados por ti. As linhas das tuas mãos, bordadas a ponto cruz, reflectem as dores de filhos paridos... alimentados na tua seiva láctea materna. Geram-se elos vincados em nós que abraçam o laço da fragilidade do teu ser. Desatas os atilhos do teu sentir... libertas as asas do sonho e vagueias os sentidos pelos sons do movimento das crianças. Parada... pareces ter partido na ausência de quem acaba de chegar retomando lentamente a pressa de mais uma flor bordar. Moves os dedos securizantes alinhavando monogramas de fios de lágrimas e sorrisos. Enxugas o rosto no quente do lume do fogão consumida pelo frio do laço que se quebrou no tempo... silenciosamente! Perdeste a conta ao vazio preenchido pelo abandono dos lençóis que perfumaste nas rosas silvestres das águas do ribeiro. Permaneces quieta no bulir agitado do coser de mais um botão de camisas sem dono. Ficam pregados a ti, em pontos apertados de bordados de vida, filhos gerados entre panos de linho branco do que restou da cor do amor! Percorres os teus rituais... reencontras instantes preenchidos a ponto cheio da garantia de que nem sempre consegues ser tu... por eles!

... e viveram felizes para sempre!

Cansados sentamo-nos nas poltronas do balcão retendo na mão os bilhetes da plateia. No conforto da dureza da pedra vimos reflectido no mar o filme da nossa vida . Cada onda trazia consigo o avivar de dias passados no tempo mas ainda tão próximos do coração! “Estás linda, minha querida!”, mesmo sem batom, botox rímel, mini-saia ou saltos altos, gosto de ti assim quando o vento de despenteia! Prendeste-me para sempre na teia verde do teu olhar quando pela primeira vez os nossos olhares se encontraram. Ainda recordo o cheiro doce daquele momento! Contemplo-te sonhadora do que já foi ou poderia ter sido... consciente do que é no presente e será no futuro! Temo-nos aos dois e ao resto do mundo até que o inevitável nos obrigue a mudar de posição nestas poltronas de pedra!

...chão da porta...


...espaço de entrada ou saída de ir ou voltar. Hesita-se na soleira da porta, o chão fugindo debaixo dos pés perante o confronto do cheiro do frio da rua e o vapor da sopa do jantar. Dúvidas bailam no pequeno espaço do chão da porta quando os ponteiros da bússola perdem os pontos cardeais. Sem norte ou rumo ao sul, fica-se ali olhando os sentidos principais... voltar, ficar ou ir! Baloiçam ideias do lado de cá e do lado de lá ... misturam-se... fundem-se ou confundem-se!? Do chão da porta do alçapão, sente-se o escuro do buraco sem saída, da miragem de mais um pé para lá do que para cá... Do chão da porta do sótão, rasgam-se caminhos a percorrer, mesmo com o pé na corda bamba, em direcção ao horizonte azul!Ficar ou partir... dependerá da dimensão do chão da porta...

... por aí!


Ecos de ideias avulsas soam quando se quer estar em estado de sombra invisível e divisível! Estar aí sem sair daqui nessa contraditória ideia fixa de ter de ficar. Sombras prateadas mancham o tecto do que pensas. Não és outro porque nem saíste nem voltaste aqui! Rodaste apenas a cadeira e espreitaste outros mundos, também redondos... ou serão quadrados?! Deslizas o dedo pelo mapa do caminho que se te apresenta à frente... sonhas e ficas por aí!