Pousou a romã sobre a mesa, limpou as mãos ao avental e sacudiu a farinha da manga da camisola. Ao mesmo tempo, com o movimento rápido da cabeça, empurrou para trás os caracóis que pendiam sobre a testa e cobriam o olhar com a mexa loura esbranquiçada. A panela preta de ferro estalava de dor do quente das labaredas. Como o crepitar do lume a fazia ficar ali e ao mesmo tempo voar para a distância da memória… Fechou os olhos e caiu no nocturno íntimo do lusco-fusco da sua interioridade. Há muito que não pegava naquele caderno amarelado do tempo onde escrevia as receitas mais significativas da sua vida: diário de comeres e sabo[e]res… Este reflecte o efeito prático do que fazia e das coisas que lhe passavam pela cabeça. Relê fórmulas mirabolantes como atum em bisnaga, … vidas registadas num almanaque de coisas menores. Passou a mão endurecida pelo sol na rugosidade saliente do papel. Reencontrou as manchas de umas quantas lágrimas teimosas que caíram e tornaram o pão desse dia ainda mais salgado.
- Então Rosinha? … - Perguntei meio a medo de ouvir uma confissão.
- … é da cebola … a cebola… ai os tempos menina… os tempos… - suspirando ruidosamente uma fungadela que se lhe solta do fundo da aflição de não saber disfarçar.
Os tempos repetem-se hoje sem preâmbulos nem expectativas em que o pão-nosso-de-cada-dia sabe ao pão-que-o-diabo-amassou.





















